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A luta contra o racismo e as vantagens da diversidade racial para as empresas

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A luta contra o racismo e as vantagens da diversidade racial para as empresas

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Conheça as consequências do racismo e as vantagens de se ter equipes que apostam em diversidade etnocultural.

O mês de novembro no Brasil é marcado pela celebração do mês da Consciência Negra. A princípio, apenas a data do 20 de Novembro era celebrada, pois foi estabelecida como data oficial pela lei federal 12.519/2011, pela então presidenta, Dilma Rousseff. A princípio, pois se faz necessário mais espaço para discussão, mais espaço para homens e mulheres negras. Hoje, celebra-se durante todo o mês de novembro.

“Enquanto brancos lutam por tempo os negros buscam espaço” – Muniz Sodré, Jornalista e Sociólogo.

O dia oficial foi legalmente instituído por sua relação com o dia de morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares. O Quilombo dos Palmares é até hoje um símbolo de luta e resistência contra a escravidão e o racismo. Uma referência à liberdade, independência e autonomia de um povo escravizado durante mais de três séculos.

O mês da Consciência Negra cumpre um papel fundamental de conscientização contra o racismo estrutural, a invisibilização social, e o obscurantismo cultural, mas, mais do que a luta, a data também celebra a história pré escravidão. Celebra a cultura afro e a negritude em si.

As cicatrizes da discriminação

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, 56,1% dos 209,2 milhões de brasileiros se declaram negros (Compreende-se por Negro o total da população de pretos e pardos, segundo nomenclatura oficial do IBGE). 19,2 milhões se declaram pretos e 89,7 milhões, pardos. No entanto, mesmo sendo a maior parcela da população brasileira, ainda é um dos grupos que mais sofre com desigualdades sociais.

O estudo de Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, realizado pelo IBGE em 2018, revela números e dados sobre o tamanho dos espaços de exclusão e vulnerabilidade econômica das populações preta e parda.

As lacunas educacionais têm sido preenchidas nos últimos anos – vamos falar mais sobre isso mais adiante. No entanto os negros ainda sofrem com maiores taxas de analfabetismo, evasão escolar, e menores taxas de frequência escolar e de conclusão do ensino médio.

Negros são também as maiores vítimas da violência no Brasil. Em 2017, 75,5% das pessoas assassinadas no país eram pretas ou pardas. 49.524 pessoas, segundo o Atlas da Violência. O jovem negro no Brasil tem em média 2.5 vezes mais chance de ser assassinado em comparação com um jovem branco, com uma taxa de 98,5 contra 34 homicídios a cada 100 mil habitantes. As mulheres negras são o principal grupo de risco nos casos de feminicídio no Brasil. Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019 mostram que 61% das mulheres que sofreram feminicídio em 2018 eram negras. Como se não bastasse, a população carcerária, também é majoritariamente negra, com 61,6% dos detidos com pele preta ou parda, contra 34,38% de brancos.

Os negros no Brasil atual sofrem com a precarização do trabalho, apesar de contabilizarem 54,9% da força de trabalho, 47,3% dessas pessoas estão na informalidade, 64,2% dos desempregados brasileiros também são pretos ou pardos. A distribuição de renda também é desfavorável aos negros. Em 2018, os brancos ganhavam em média R$ 1.846,00, contra R$ 934,00 dos negros. Quase metade. No mesmo período, as taxas de pobreza e extrema pobreza entre os negros era quase duas vezes maior do que entre os brancos. Até dentro dos 10% mais ricos, os negros ainda são minoria. Apenas 27,7%.

As posições de poder ocupadas por negros também não condizem com a distribuição populacional de pretos e pardos. Apenas 24,4% dos deputados federais, e 28,9% dos deputados estaduais eleitos em 2018 eram negros. Entre os magistrados, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça em 2013 (último ano com dados), 83,8% eram brancos, apenas 15,6% eram pretos ou pardos. Nos tribunais superiores, os números são ainda mais graves. Apenas 8,9% são negros. Em toda a história, apenas 3 negros ocuparam uma posição no STJ. Nunca houve um Presidente da República negro no Brasil.

Essa falta de representatividade em posições de poder, traduz-se na perpetuação da precariedade e vulnerabilidade social, política, e econômica desses brasileiros. Não havendo ainda um panorama nacional que seja favorável à justiça racial. Uma vez que a igualdade é a consequência da justiça. Afinal, mais de 300 anos de escravidão não se apagam em algumas décadas. A ascensão econômica e a inclusão social são as ferramentas mais eficazes para mitigar os danos causados pelos espaços de exclusão, invisibilização e subalternização.

O racismo estrutural

Em 2020 o Grupo Croma investigou o impacto da diversidade para marcas e negócios (), e realizou um estudo que desnuda a importância da representatividade e inclusão. O preconceito racial ainda está muito arraigado na sociedade brasileira. 70% dos entrevistados declararam que já sofreram algum tipo de discriminação racial, e 77% dizem que empresas ainda tem preconceito ao contratar pretos. Essa percepção afasta consumidores negros. 72% simplesmente não consomem produtos de marcas com comportamentos preconceituosos, e 64% recomendam marcas que falam abertamente sobre diversidade.

Diante de todos esses dados, é importante desmistificar a ideia de que pautas como equidade, inclusão e diversidade são uma tendência. Iniciativas que promovem a diversidade e inclusão tem um efeito positivo no posicionamento das marcas e na percepção dos consumidores. No entanto, a realidade mostra que pretos e pardos ainda são minorias até mesmo dentro das empresas mais diversas.

Em 2018 o Instituto Ethos em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a fim de entender o perfil racial e de gênero, analisou 500 empresas brasileiras. Os dados mostram que negros ainda compõem 57,5% das posições de aprendizes e 58,2% das posições de trainees, mas são minoria em posições de alta gerência. Entre as empresas analisadas, pretos e pardos são absoluta minoria dentro dos conselhos administrativos, do quadro executivo e das posições de gerência 4,9%, 4,7% e 6,3% respectivamente33% dessas empresas afirmaram estabelecer programas especiais para a contratação de profissionais negros. 55,6% dizem promover a capacitação profissional desses profissionais para que ocupem posições normalmente não ocupadas por negros. No entanto, apenas 11,1% tem metas estabelecidas para ampliar a presença de negros em cargos de direção e gerência.

Quando questionados sobre a ausência de negros nessas posições, 48,3% dos gestores dizem haver falta de qualificação profissional de negros para esses cargos. Aqui percebemos claramente como esse ciclo se fecha, formando o infame Racismo Estrutural.

Pretos e pardos encontram menos oportunidades educacionais, que por consequência faz com que tenham menos oportunidades de ascensão profissional. A falta de oportunidades de ascensão profissional precariza e fragiliza a situação econômica, marginalizando esse grupo, aumentando sua exposição à violência. A falta de representatividade em posições de autoridade política e posições estratégicas nas empresas, faz com que menos políticas de equidade e inclusão sejam criadas, perpetuando assim o ciclo do racismo estrutural.

Não se pode esperar que a população negra sozinha quebre a roda e se liberte das amarras do racismo estrutural. Todos temos essa responsabilidade.

Quebrando a roda

Políticas públicas são extremamente necessárias para a equidade de oportunidades. Políticas como a lei de cotas, ou Lei nº 12711/2012, que reserva 50% das vagas em universidades e institutos públicos para estudantes que completaram o ensino médio em escolas públicas, ou a Lei nº 13409/2016, que institui que parte dessas cotas devem ser destinadas a pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência. O PROUNI, instituído em 2004, também facilita a entrada de negros nas universidades, só que desta vez, particulares.

Desde sua promulgação, a lei de cotas tem causado uma transformação no ensino superior Brasileiro. Pela primeira vez na história, negros são maioria no ensino superior público, ocupando 50,3% das posições. Segundo pesquisadores da Universidade de Illinois, nos EUA, houve um aumento de 9,8% no número de estudantes pretos e pardos, de 10,7% de estudantes de escolas públicas, e 14,9% de estudantes de baixa renda. Apesar de parecerem três demográficos distintos, existe uma enorme sobreposição entre eles. Negros ainda são a maioria entre os estudantes de escolas públicas e dos estudantes de baixa renda, também.

Algumas outras medidas estão sendo tomadas, principalmente quanto à representatividade. Destaca-se a Emenda Constitucional 111, que conta com dispositivos para incentivar a candidatura de mulheres e pessoas negras. Analisada em setembro de 2021, a PEC 28/2021, determina que os votos dados a mulheres e pessoas negras serão contados em dobro para efeito da distribuição dos recursos dos fundos partidário e eleitoral nas eleições de 2022 a 2030. Dessa forma fortalecendo a posição de mulheres e negros em nas negociações internas dos partidos.

As empresas também são fundamentais na luta pela justiça racial. A iniciativa privada tem muito a ganhar com maior diversidade étnica e de gênero. Segundo levantamento da McKinsey & Company, realizado com mais de 1000 empresas de 12 diferentes países, empresas que apostam em diversidade étnica e cultural em suas equipes executivas apresentam resultados de produtividade até 33% maiores.

Isso ocorre porque as empresas que investem na diversidade atraem melhores profissionais, além de focarem na experiência do cliente, devido à identificação entre consumidor e colaborador. A pesquisa Oldiversity 2020 do Grupo Croma exacerba essa percepção, já que 68% dos entrevistados afirmam que não se sentem representados pelas marcas em geral. Segundo a Google/Ipsos em 2019, 69% dos consumidores negros são mais propensos a comprar de uma marca cuja publicidade reflete positivamente sua cor.

Em um estudo de 2015 realizado no Brasil pela Harvard Business School, aproximadamente 76% dos funcionários das empresas que se preocupam com a diversidade reconhecem que têm espaço para expor suas ideias e inovar no trabalho. Já nas empresas que não têm a diversidade como pauta da agenda, esse número cai para 55%. O índice de engajamento dos funcionários nessas empresas também é 17% maior.

A conclusão que fica é de que toda a sociedade se beneficiaria com o fim do racismo. No entanto, o obscurantismo cultural e a falta de representatividade política são os maiores entraves para a intensificação da luta. Movimentos sociais, ONGs e Empresas têm dado as mãos para mudar essa realidade, mas ainda existe uma longa caminhada para a verdadeira equidade e justiça racial. Devemos todos enquanto sociedade civil nos posicionar e cobrar posicionamento das marcas e órgãos governamentais. Sua empresa, o que faz para combater o racismo?

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